Entenda como a exploração de acesso remoto, o uso indevido de credenciais válidas e a movimentação lateral se encadeiam até comprometer sistemas críticos e afetar a continuidade operacional
Por Ismael Rocha: A cibersegurança na manufatura é o conjunto de estratégias e controles voltados à proteção de ambientes industriais que combinam Tecnologia da Informação (IT) e Tecnologia Operacional (OT).
Com a digitalização acelerada das plantas industriais e a crescente convergência entre sistemas corporativos e operacionais, o setor tornou-se um dos principais alvos de ransomware, espionagem industrial e extorsão digital.
A questão estratégica já não é se haverá tentativa de intrusão, mas se a organização está preparada para manter a continuidade operacional diante dela.
Neste artigo, você vai entender:
- Por que a manufatura é alvo prioritário de ataques cibernéticos;
- Como a convergência IT/OT amplia a superfície de ataque;
- Como ataques evoluem na prática em ambientes industriais;
- Quais são os principais vetores de entrada;
- Como reduzir exposição e fortalecer a resiliência.
Por que a manufatura se tornou alvo preferencial de ataques cibernéticos?
A manufatura combina três fatores estratégicos de interesse para atacantes:
- Operações 24×7 com baixa tolerância a interrupção;
- Integração intensa entre TI corporativa e ambientes OT;
- Dependência de terceiros com acesso remoto.
Quando comprometidos, mesmo sem manipulação direta de PLCs ou SCADA, podem gerar paralisação de linhas, descumprimento contratual e impacto financeiro imediato.
O risco, portanto, não é apenas tecnológico. É operacional e financeiro.
Segmentos afetados
Os setores mais visados globalmente:
- Automotivo;
- Alimentos e bebidas;
- Metalurgia e siderurgia;
- Químico e petroquímico;
- Energia e manufatura pesada;
- Farmacêutico.
No Brasil, os alvos mais frequentes incluem:
- Indústrias de base;
- Fabricantes com operação 24×7;
- Empresas integradas a cadeias globais;
- Organizações com OT legado e baixa segmentação de rede.
O que é convergência IT/OT e como ela amplia a superfície de ataque?
Convergência IT/OT é a integração entre sistemas corporativos de TI e sistemas industriais de operação.
Na prática, uma arquitetura típica de manufatura inclui:
- IT (Tecnologia da Informação): Active Directory (AD), sistemas ERP, e-mail corporativo, soluções EDR/XDR, servidores de aplicação, banco de dados, file servers, VPNs, serviços em nuvem;
- Camada de integração IT/OT: sistemas MES integrados ao ERP, acessos remotos para manutenção e suporte, integradores de sistemas industriais, fornecedores terceirizados e fabricantes de equipamentos (OEMs), jump servers;
- OT/ICS (Tecnologia Operacional): Controladores Lógicos Programáveis (PLCs), Interface Homem-Máquina (HMIs), sistemas SCADA, historianos de processo, estações de engenharia, servidores de automação e redes industriais dedicadas.
Essa integração aumenta eficiência, mas cria caminhos potenciais para que um comprometimento iniciado em TI alcance ambientes operacionais.
Como ataques funcionam na prática em ambientes industriais?
Ataques na manufatura seguem uma progressão estruturada:
- Acesso inicial por VPN vulnerável, serviços expostos ou phishing direcionado;
- Uso indevido de credenciais válidas, frequentemente associadas a contas privilegiadas ou de terceiros;
- Movimentação lateral com comprometimento de Active Directory e sistemas corporativos;
- Alcance de sistemas que sustentam a produção, como ERP e MES;
- Impacto por meio de ransomware, exfiltração de dados ou ambos.
O ransomware permanece predominante por oferecer monetização rápida da interrupção operacional.
Dados recentes indicam que malware está presente em aproximadamente 66% das violações no setor, sendo 71% desses casos associados a ransomware. Em um ambiente com baixa tolerância a indisponibilidade, a pressão por negociação tende a ser maior.
A espionagem industrial também mantém relevância estratégica, impulsionada por disputas econômicas e tecnológicas. Os alvos mais recorrentes incluem projetos de engenharia, processos industriais, informações de fornecedores e dados comerciais sensíveis.
Em ambientes OT e ICS, fragilidades como acesso remoto inseguro, segmentação insuficiente entre IT e OT e uso de protocolos legados sem autenticação robusta ampliam o risco de que um comprometimento em TI evolua para impacto operacional.
Na prática, ataques combinam extorsão e coleta de dados, conectando acesso inicial técnico a consequências estratégicas.
Principais vetores de entrada na manufatura
A análise do Heimdall aponta alguns vetores recorrentes:
- Exploração de edge e VPN;
- Uso de credenciais válidas;
- Phishing e anexos maliciosos;
- Comprometimento da cadeia de suprimentos;
- Pivot de IT para OT por segmentação insuficiente.
A combinação entre acesso remoto crítico e governança heterogênea de terceiros amplia significativamente a superfície de ataque.
Exposição de protocolos industriais e implicações de risco
Consultas defensivas em plataformas públicas indicam volumes relevantes de dispositivos industriais expostos globalmente, incluindo:
- Porta 502, associada ao Modbus TCP: um dos protocolos industriais mais difundidos no mundo, presente em PLCs, sistemas SCADA, sensores e dispositivos OT legados, frequentemente sem mecanismos nativos de autenticação ou criptografia;
- Porta 44818, associada ao EtherNet/IP: amplamente utilizado em ambientes industriais, especialmente em controladores e sistemas Rockwell Automation/Allen-Bradley, comuns em fábricas e plantas de manufatura.
Exposição não significa comprometimento automático. No entanto, reduz barreiras de acesso inicial e aumenta pressão de correção, especialmente quando combinada a credenciais fracas ou ausência de MFA.
Impactos estratégicos para o negócio
Em manufatura, o impacto de um incidente pode incluir:
- Parada de produção;
- Multas contratuais;
- Vazamento de propriedade intelectual;
- Interrupção da cadeia de suprimentos;
- Risco físico e de segurança operacional.
A discussão executiva não deve se limitar a probabilidade de ataque, mas à capacidade de manter continuidade operacional sob cenário adverso.
Como reduzir exposição: prioridades estratégicas
Redução de risco exige priorização baseada em impacto.
Redução de probabilidade
- Hardening de VPN e dispositivos de borda;
- MFA obrigatório;
- Eliminação de contas compartilhadas;
- Segmentação efetiva entre IT e OT.
Redução de impacto
- Backups imutáveis e testados;
- Monitoramento comportamental;
- Governança de terceiros;
Plano de resposta com foco operacional.
Resiliência como diferencial competitivo na manufatura digital
A manufatura opera em um cenário onde eficiência digital e risco cibernético caminham juntos. A convergência IT/OT é irreversível.
O que diferencia organizações resilientes é a capacidade de reduzir exposição nos pontos críticos e limitar o impacto quando um incidente ocorre.
A decisão estratégica não é se haverá tentativa de intrusão. É se a organização está preparada para manter a operação diante dela. Entre em contato com nossos especialistas e entenda como a ISH pode te ajudar nessa jornada.